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Moonlight ou La La Land?

Warren Beatty entra juntamente com Faye Dunaway para finalmente apresentarem o ganhador de melhor filme do Oscar 2017. Nas mãos de Warren está o envelope vermelho que contém o nome de quem será prestigiado.

Warren começa abrir o envelope e se prepara para pronunciar as tradicionais palavras – “And Oscars goes to” – e é quando se surpreende com o que está escrito na carta que estava dentro, e hesita ao entregá-la para Faye, porque sabia que algo estava incorreto. Faye, em um momento de ansiedade, não percebe a falha assim como percebeu Warren, muito menos que poderia ter sido amenizada de forma menos vergonhosa, e imediatamente pronuncia o grande vencedor da noite: La La Land.

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Foi lindo, todos subiram no palco e agradeceram seus familiares e amigos, lembraram-se do trabalho árduo de um ano incrível, sentiram-se gratos pelo reconhecimento merecido da academia. Mas isso não durou muito tempo, pois o verdadeiro vencedor estava no banco assistindo a tudo isso.

Depois de toda essa estranha confusão ocorrida na premiação do Oscar, onde La La Land foi anunciado como melhor filme no lugar de direito a Moonlight, foi preciso muita postura e uma dose de piada para a correção desta falha.

Mas a pergunta mais pertinente a ser feita, e que ao errarem dessa maneira acabaram gerando margem para o questionamento e o espaço para essa enorme dúvida, não só em mim, mas em milhares de pessoas que estavam assistindo, é:

Quem realmente merecia o Oscar: La La Land ou Moonlight?

Em um ano de muito engajamento político por grande parte de Hollywood, uma noite de premiações sendo bombardeadas por piadas e indiretas ao atual governo dos Estados Unidos, fica a pergunta: Até onde isso é saudável?

Eu infelizmente precisei ler em algum site qualquer que a escolha de Moonlight era, na essência, uma forma da academia mostrar a todos de que, nas palavras dos mesmos: “La La Land era um sonho possível para os Sebastians e Mias, mas ainda era um sonho impossível para os milhares de Chirons”. (Referencia aos protagonistas de La La Land e Moonlight).

Eu não posso discordar desta afirmação, levando em consideração a dura realidade de nossas vidas fora das telas. Mas esse não pode ser o único critério avaliado em uma obra cinematográfica que pleiteia o Oscar.

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Moonlight – Vencedor do Oscar 2017

Em minha opinião cabe a academia a análise integral da relevância e da qualidade da obra que se dispõe ser avaliada, critérios que caberiam perfeitamente em Moonlight. Mas a academia falha retumbantemente quando confunde seu papel de avaliadora com o de doutrinadora quando encontra o desejo de “passar uma mensagem ao mundo”. Esse papel cabe à obra e aos seus idealizadores, para a academia resta apenas a imparcialidade crua e fria.

Em contraste com a turbulência na política americana, infelizmente a imagem que a academia deixa é uma tentativa de redimir seus erros, que, ao contrário do ano passado ao serem acusados de racistas por não trazerem nenhuma nomeação de negros para o Oscar, esse ano trouxe nomeações merecidas e de grande importância para os atores negros e obras que levantaram novamente a ainda atual discussão da discriminação racial.

O problema maior é que a parcialidade nesta questão pode ter ofuscado todo o merecido reconhecimento aos atores que transcenderam um simplório conflito de interesses políticos.

Acredito profundamente que, ao tentar fazer papel de propagadora de mensagens, a academia confunde seu papel e coloca em risco a sua credibilidade de avaliar, e essa falta de credibilidade e parcialidade não vem de hoje. A justa medida é fator fundamental para tal posição, e quando se torna partidarista, ela se choca com seu verdadeiro propósito.

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A confusão no Oscar 2017 – Reprodução: Internet

Viola Davis, Denzel Washington, Mahersala Ali, Ruth Negga, Octavia Spencer e Naomie Harris, nenhum deles merecia estar ali por outro motivo a não ser pelo seu dedicado, brilhante e inconfundível trabalho, e nenhum deles precisa de caridade alguma para esse reconhecimento. Especialmente Viola Davis, que merecia como bônus o Oscar de melhor discurso logo após ganhar o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Ou Denzel Washington, já detentor de duas estatuetas.

Nas palavras do próprio Mahersala Ali, um ator negro e muçulmano, e de quem se esperava um discurso inflamado e de forte teor político, apenas reservou-se a agradecer amigos e família. Em entrevista ao Holywood Reporter, o ator declarou: “Espero não ter sido nomeado por ser negro. Isso não tem relevância”.

 O que eu quero dizer com tudo isso?

Quero dizer que, em minha opinião, La La Land era o filme impecavelmente construído e o melhor em sua categoria, Moonlight trazia uma mensagem relevante e atual, se aprofundando na realidade.  Ambos concorreram como iguais, por serem excelentes obras cinematográficas, nem mais e nem menos, simples assim.

E que, ao invés de ser reconhecido pela grande maioria como apelo de causa e fins políticos atuais, ou alguma espécie estúpida de compensação ao vexame do ano passado, Moonlight deveria simplesmente ser reconhecido pelo mérito no incrível trabalho que cumpriu.

E ouso a dizer algo ainda mais grave, qualquer tentativa de justificar o reconhecimento colocando outros fatores para a causa da vitória, seja politico, social, ideológica ou religiosamente, não apenas será um enorme desrespeito com o trabalho entregue, mas uma grotesca forma de tentar maquiar o racismo e preconceito.

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